O peixe simboliza o Mercado. Se formos buscar os produtos vendidos no local desde a época das barraquinhas, certamente que tainha, corvina, anchova, cocoroca e sardinha estarão presentes. E junto com eles, a figura do escamador também é uma constante. De início, somente servindo aos mais abastados e hoje, em uma época em que poucos dominam a prática, presença obrigatória em todas as peixarias. Alguns se tornaram famosos, como o Chico Escamador:
Mães e avós ainda lembram do Chico Escamador. Descia a escada lateral ao Mercado e, na mesa à beira-mar, com suas facas sempre afiadas, limpava os peixes. Tainhas, tainhotas, corvinas,, escamava e ia colocando em uma caixinha. Era num piscar de olhos. Governava 40 kg de peixes quase todos os dias para o Bar do Joca. Escamar ou lonquear, Francisco Manuel da Rosa, era mestre da arte. (MESQUITA, 2002, p.111).
“Governar” é um termo local para escamar. Lonquear significa tirar o couro ou raspar com a faca. Esses dois termos já antigos e pouco utilizados, mostram outra faceta do Mercado. Guardar passagens do tempo que foram aos poucos sendo apagadas, conscientemente ou não.
O prédio é composto por várias camadas de tinta, de materiais e de histórias. Cada uma delas pode ser comparada com as escamas de um peixe. Neste site, o Mercado vai ser tratado como um grande peixe e as fontes, com suas “pistas”, serão as escamas, retiradas uma a uma de acordo com a habilidade e a sensibilidade do escamador-estudante.
Usar as escamas sendo retiradas de um peixe revela um Mercado tratado como um “palimpsesto”, sendo apagado e reescrito continuamente. Proponho, portanto, aos estudantes e professores, a retirada dessas camadas de tempo como fazem os escamadores de peixe. Os palimpsestos são abundantes dentro do Mercado e o objetivo da proposta é identificar alguns deles, para refletir sobre a forma como a patrimonialização de um bem é construída e reproduzida para as diferentes gerações.
As escamas do tempo serão retiradas, da mesma forma que Chico Escamador fazia com grande habilidade durante sua labuta diária. Com a técnica de quem aprendeu o ofício na mais tenra infância, mas com a sensibilidade necessária para saber que existem diferentes tipos de peixes e diferentes formas de “governá-los”, dependendo dos objetivos dos clientes.
REFERÊNCIA:
MESQUITA, Ricardo Moreira de. Mercado: do mané ao turista. Florianópolis. Ed. do autor, 2002.
Retirar oito escamas do Mercado é o nosso propósito nesse momento. Cada “Escama” trará fontes e pistas que pretendem despertar olhares sobre diversos aspectos da história do Mercado Público Municipal de Florianópolis:
ESCAMA 1 – O RELÓGIO E OS CAMINHANTES: (início e introdução do percurso): trabalha as diferentes formas de ver o tempo, presente em toda a caminhada, a partir do relógio do Mercado.
ESCAMA 2 – A ALA NORTE: trabalha a inauguração do prédio de 1899, chamado de ala norte, a partir da sua entrada e caminhando pelo corredor central até o corredor lateral.
ESCAMA 3 – OS COMERCIANTES E OS PRODUTOS: trabalha os vendedores mais famosos e os produtos que marcam a história do local, a partir da caminhada pela parte externa (ou interna) da ala norte do Mercado.
ESCAMA 4 – O POVO: trabalha a participação das classes menos privilegiadas economicamente na construção da memória do local, a partir da saída da ala norte do Mercado.
ESCAMA 5 – A ALA SUL: trabalha as peixarias, as torres e a inauguração do prédio de 1931, chamado de ala sul, a partir da sua entrada e da caminhada até o corredor lateral.
ESCAMA 6 – O MAR: trabalha a relação do Mercado e da cidade com o mar, a partir da área externa da ala sul.
ESCAMA 7 – A RESSIGNIFICAÇÃO: trabalha as mudanças recentes na estrutura e na mentalidade do local, a partir da caminhada pela parte interna da ala sul do Mercado.
ESCAMA 8 – O VÃO CENTRAL: trabalha as mudanças ocorridas na parte interna dos dois prédios, a partir da circulação pelo chamado Centro Cultural Luiz Henrique Rosa.

FONTE: Ilustração original sem as rotas e a localização dos QR-Codes: NIENOW, Fábio. Jornal Diário Catarinense de 11/10/2014, p. 20-21. Link: infográficos fábio nienow: mercado público de florianópolis, acesso em 19/03/2025).